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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Neve - Penhas da Saúde - Serra da Estrela




A formiga e a neve 

Uma formiga prendeu o pé na neve. 
“Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prendes!” 
Responde a neve: “Tão forte sou eu que o sol me 
derrete.” 
“Ó Sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu 
pé prende!” 
Responde o Sol: “Tão forte sou eu que a parede me impede.” 
“Ó parede, tu és tão forte que impedes o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!” 
Responde a parede: “Tão forte sou eu que o rato me fura.” 
“Ó rato, tu és tão forte que furas a parede que impede o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!” 
Responde o rato: “Tão forte sou eu que o gato me come.” 
“Ó gato, tu és tão forte que comes o rato que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!” 
Responde o gato: “Tão forte sou eu que o cão me morde.” 
“Ó cão, tu és tão forte que mordes o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!” 
Responde o cão: “Tão forte sou eu que o pau me bate.” 
“Ó pau, tu és tão forte que bates no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!” 
Responde o pau: “Tão forte sou eu que o lume me queima.” 
“Ó lume, tu és tão forte que queimas o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!” 
Responde o lume: “Tão forte sou eu que a água me apaga.” 
“Ó água, tu és tão forte que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!” 
Responde a água: “Tão forte sou eu que o boi me bebe.” 
“Ó boi, tu és tão forte que bebes a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!” 
Responde o boi: “Tão forte sou eu que o carniceiro me mata.” 
“Ó carniceiro, tu és tão forte que matas o boi, que bebe a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!” 
Responde o carniceiro: “Tão forte sou eu que a morte me leva.” 

COELHO, Adolfo, Contos Populares Portugueses, 1879. 

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