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sábado, 25 de agosto de 2012

Igreja Senhor Jesus da Piedade - Elvas


Igreja Senhor Jesus da Piedade - Elvas


No contexto da arquitectura portuguesa de Setecentos, marcada por um forte eclectismo resultante de diferentes confluências de inspiração nacional e internacional, a igreja do Senhor Jesus da Piedade, em Elvas, constitui um dos mais significativos exemplos das experiências barrocas do reinado de D. João V. Todavia, ao contrário do que acontece noutros templos alentejanos, também eles inscritos no ciclo de influência de Mafra (SERRÃO, 2003, p. 188), o modelo do Senhor Jesus da Piedade parece não derivar do grande monumento joanino, mas sim da convergência entre a tradição nacional e o barroco da Europa Central, como veremos mais à frente (GOMES, 1988, p. 31).

Edificada em 1753, a igreja veio substituir uma pequena capela, que havia sido construída poucos anos antes, em 1737. É possível que a exiguidade do primeiro espaço tivesse levado à sua ampliação, pois a romaria a este templo (de 20 a 23 de Setembro) era considerada uma das mais concorridas da região (KEIL, 1943, p. 69). O adro que lhe fica fronteiro, com a sua escadaria, corrobora esta ideia, uma vez que estes terreiros, de alguma amplitude, tinham como principal função receber os crentes, substituindo assim os longos escadórios dos santuários do Norte do país (BORGES, 1999). Nos muros, o revestimento azulejar polícromo data já da segunda metade do final do século XVIII.

A igreja desenvolve-se em planta longitudinal, de nave única. A fachada é marcada por torres, coroadas por cúpulas bolbosas, implantadas obliquamente em relação ao alçado, formando um losango, o que constitui uma solução quase única no nosso país (ver igreja da Senhora da Graça da Atouguia da Baleia), embora comum na Europa Germânica e no Brasil (GOMES, 1988, p. 31; ATAÍDE, 1992). Estas, formando com o corpo central uma espécie de contracurva ou harmónio, têm o poder de conferir à fachada uma forte unidade. Contudo, as duas correntes a que nos referimos inicialmente encontram-se aqui bem presentes. Seguindo, novamente, a leitura de Paulo Varela Gomes (IDEM, p. 32), percebemos como as cúpulas e o frontão são elementos barrocos, enquanto a linearidade dos restantes elementos (portal com frontão curvo, janelão recto...), com as pilastras a evidenciar a depuração do alçado, estão mais próximos da arquitectura de tradição nacional. Por sua vez, a influência da Europa Central faz-se sentir na ambiguidade ou não funcionalidade específica de determinados elementos, como é o caso do frontão.
No interior, a nave é revestida por mármores de diferentes tonalidades. Tem dois altares laterais, de mármores polícromos, com telas pintadas por Cyrillo Wolkmar Machado, representando Nossa Senhora da Graça e o Arrependimento de S. Pedro (KEIL, 1943, p. 69). Dois púlpitos também de mármore, exibem motivos dourados, e o coro assenta em arco abatido. A ligação entre o corpo da nave a capela-mor é feita através de um corpo com os cantos cortados, que forma um octógono, numa solução também original. Na capela-mor, o retábulo foi executado no mesmo material que os restantes altares, encontrando-se, no pavimento, uma lápide sepulcral onde se refere que Roperto Manoel Marques e Vas.os, cavaleiro de sua majestade e padroeiro da igreja, mandou fazer da capela-mor jazigo para si e seus descendentes, no ano de 1779.

Desconhecemos o autor de tão interessante risco, embora recentemente, Vítor Serrão tenha apontado, com bastantes reservas, o nome de José Francisco de Abreu, arquitecto alentejano ainda pouco conhecido mas com obra comprovada em Elvas e Vila Viçosa (SERRÃO, 2003, p. 188).

Uma última referência para a sacristia, com tecto pintado, portas com almofadas entalhadas e douradas, e revestimento azulejar polícromo.

(Rosário Carvalho)

Fonte: IGESPAR IP 

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