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terça-feira, 8 de maio de 2012

Tejo - Lisboa


 Tejo - Lisboa



"Abismo"

Olho o Tejo e de tal arte
Que me esquece estar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando -
O que é ser-se rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco -
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo - eu e o mundo em redor -
Fica mais que exterior

Perde tudo o ser, ficar
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome
A mim. à terra e aos céus...
E súbito encontro Deus.

Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa, Vol I, 1986, Lelo &Irmão - Editores Porto

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